• Letícia Junqueira

"O Haiti é (quase) aqui" - Calendário Áfrico-Diaspórico

Atualizado: Abr 18




Haiti, o primeiro território da América Latina a conquistar a sua independência frente à colonização francesa em primeiro de janeiro de 1804. Este é o marco que inicia o Calendário Áfrico-Diaspórico, devido à sua relevância que levou este país a ser a primeira República Negra das Américas.

Entretanto, a história deste país não começa em seu dito "descobrimento" pelos espanhóis, na expedição de Cristóvão Colombo, em 1492. Neste período, Espanha teria começado a apossar-se da parte oriental da ilha, que hoje é a República Dominicana, enquanto que, por um acordo com os franceses em 1697 (o Tratado de Ryswick), França apossar-se-ia da parte leste da ilha, designando-na "Saint Domingue". Esta ocupação francesa, mais propriamente designada "invasão, espoliação e genocídio", levou o povo indígena que ali habitava, os aruaques (ou "arauaques", "arawak" ou "taínos"), a quase extinção. Ainda assim e apesar da triste dificuldade de encontrar informações seguras a respeito desta civilização indígena, é indispensável destacar que ali viviam há séculos e que resistiram à dominação, sendo pois exterminados em sua quase totalidade através de guerras com os colonizadores e por doenças trazidas por estes últimos. Atualmente, de acordo com a Britannica Escola, da CAPES, há descendentes dos taínos em Porto Rico, em Cuba e na Flórida (sul dos USA).

Dessa forma, durante o período de apropriação francesa, a ilha de Saint Domingue foi a mais importante para o enriquecimento da metrópole, uma vez que as plantações de açúcar cultivadas com mão de obra escrava de negros(as) africanos(as) e seus(suas) descendentes era demasiado rentosa. Haja vista o baixo custo de produção (principalmente porque não pagava-se o trabalho de cultivo) e o alto valor do açúcar no mercado do século XVIII. Entretanto, de acordo com as narrativas oficiais (das quais peço a liberdade de duvidar), ainda neste século, França vivenciou a "Revolução Francesa" e registrou a "Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão" (1789) trazendo para o cenário político ocidental os ideais de "liberdade, igualdade e fraternidade" como premissas para todos os seres humanos. Assim, apoiados nisso, os escravizados da ilha começaram a reivindicar a sua liberdade e rebelaram-se, em 1791, com a liderança de Toussaint L'Ouverture. Fica claro aqui, ainda assim, que a dúvida que pontuo não está sobre a influência que a situação sociopolítica francesa tenha incidido em Saint Domingue mas, antes, na veracidade de que a resistência e as revoltas dos escravizados(as) tenham acontecido somente a partir deste período, porque é custoso acreditar que pessoas então livres (seja em África, a princípio, seja em espírito e mente, enquanto descendentes já nascidos fora do Continente Africano) não tenham se revoltado antes, em pequenos ou grandes levantes.

Como resultado da revolução liderada por L'Ouverture, em 1794 a escravidão foi abolida neste território, o que foi uma grande conquista, e este ativista e ex-escravo foi nomeado governante vitalício em 1801. No entanto, como ainda estavam sob o domínio francês, o exército de Napoleão Bonaparte foi enviado à ilha para retomar o poder absoluto de França sobre o território e sua população e reinstaurar a escravidão. Esta postura deste "queridinho europeu" causou a prisão de Toussant em França (e ele falece lá, em 1803) e a retomada das revoltas, agora lideradas por Jean-Jacques Dessalines, também ex-escravo, que leva à independência do país, em 1° de janeiro de 1804. Assim, em referência à língua arawak, designa-se o novo nome da ilha: Haiti. Dessa forma, ela torna-se o grande exemplo áfrico-diaspórico de uma revolta de negros escravizados que foi bem sucedida, sendo a primeira no mundo moderno e uma das poucas que derrotou o exército de Napoleão.

A continuidade da história da República do Haiti, entretanto, não deixa de ser conflituosa. O então novo país vê-se com uma população majoritariamente negra e com uma menor porcentagem de "mestiços" (geralmente nomeados "mulatos", palavra preterida no Brasil por boa parte dos negros e negras) e, ainda menor, de brancos. Logo, os diferentes interesses político-econômicos começam a impedir a estabilização da democracia haitiana e, em 1806, após o assassinato de Dessalines, a elite, que era composta por estes "mestiços", toma o poder. Assim, o norte do país fica sob o domínio de Henri Christophe e, o sul, sob Alexandre Pétion. Apenas em 1820 que o país será novamente unificado, por Jean-Pierre Boyer. Aproveitando-se desta descentralização do governo haitiano, os EUA invadem o território em 1915 e retiram-se apenas em 1934. Enfim, o poder retorna aos haitianos mas, ao longo de sucessivos golpes de Estado, será apenas em 1990 que ocorrerão eleições presidenciais livres no país (democráticas), que elegem Jean-Bertrand Aristide, um padre de esquerda negro.

O governo de Aristide também caracteriza-se por alguma instabilidade, devido ao golpe que o político sofreu no mesmo ano, pelo general Raoul Cedras. Este evento fez com que a ONU interferisse na política do país, impondo sanções econômicas, e com que Aristide regressasse ao cargo apenas em 1994. Entretanto, devido a impasses de governabilidade, ele renunciou ao cargo em 1996, que foi assumido por René Garcia Préval (finalizando em 2001). Dessa forma, somente em 2000 Aristide elege-se novamente, vence as eleições (apesar de ter o resultado contestado pela oposição) e governa de 2001 até 2004. Em fevereiro deste ano, cercado por fortes manifestações anti-governamentais e pela insurgência de rebeliões, o então presidente parte para a África do Sul em exílio, ao que novamente Préval assume o governo, de 2006 a 2011. Então, à contra-gosto dos Estados Unidos da América, Aristide retorna ao Haiti alguns dias antes da última possibilidade de elerger-se à presidência, em março de 2011, vencendo. Assim, Jean-Bertrand Aristide governa a ilha até 2016, quando há novas eleições (das quais ele não pode participar, pois já fora presidente duas vezes) e, então, é eleito Jovenel Moïse, atual chefe de Estado da República do Haiti.

Numa percepção de política externa, entretanto, destaca-se que, para além das incongruências e conflitos de interesses e ideologias políticas que são naturais dentro da formação de qualquer Estado, há também o comportamento e as posturas dos demais países e instituições do mundo que influenciaram, ora negativa, ora positivamente, no desenvolvimento político, econômico e social do Haiti. Como exemplo, tem-se o momento de sua independência, que só foi reconhecida pela França trinta anos depois (em 1834), no qual a ilha sofreu bloqueios de mercado de seu açúcar pelos países compradores europeus e pelos EUA. Além disso, em 1825, para que a França aceitasse o acordo de independência, Haiti teve de concordar em "reparar os proprietários de escravos" e pagar uma "dívida" de 150 francos, o que colocou o jovem país em anos de pagamento de uma dívida externa absurda (afinal, ninguém indenizou os ex-escravizados, não é mesmo?) enquanto a pobreza instalava-se no país.

Outros aspectos também contribuíram para as dificuldades de estabilidade político-econômica do país e, principalmente, para a estagnação negativa do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da população haitiana, tais como a degradação ambiental herdada do sistema colonial das plantations (grandes plantações monocultoras, principalmente de açúcar) e, mais recentemente, o abalo sísmico que impactou a ilha em 2010. Este terremoto, de magnitude 7 na escala Richter, devastou algumas cidades do país, inclusive sua capital, Porto Príncipe, e causou a morte de estimadamente duzentas mil pessoas. Sendo assim, é relevante ter em consideração toda a história do país, brevemente traçada aqui, em seus aspectos internos, externos, sociais e naturais (ou "socio-ambientais") para realizar uma reflexão a respeito dele o mais despida de ignorância e racismo.

Como escreveu Eduardo Galeano, em seu artigo que deixo "linkado" abaixo, <<Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: “Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos">>, ideologia que justificou e alimentou o racismo moderno ----- este: estruturado e colocado em prática pelos povos europeus, brancos, a fim de determinzar a inferioridade biológica e social dos(as) negros(as) africanos(as) e seus(suas) descendentes ----- e continua enraizada nos inconsciente e consciente de boa parte das pessoas do mundo todo. Para contrariar este pensamento e esta postura segregacionista e determinista, convido-vos à uma postura conscientimente anti-racista.


Este foi o primeiro texto do meu projeto "Calendário Áfrico-Diaspórico", sujeito a aperfeiçoamentos.

Link do texto de Eduardo Galeano (escritor e jornalista uruguaio): http://www.palmares.gov.br/…/A-hist%C3%B3ria-do-Haiti-%C3%A…


Letícia Junqueira.


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