• Letícia Junqueira

Cadê a criança que eras?

Dia do Livro Infantil - 18 de abril de 2020




Quando voltares-te para dentro, vê se enxerga. Não busques fingir um mergulho, não tentes simular o profundo. Mas, antes, inspira todo o ar do Mundo e vai visitar o teu eu-desnudo. Lembras-te de quando nascestes? Pois ainda que não, esforça-te um bocadinho mais, não deixes triste aquela pessoa que acabava de ser. Então, dizes-me, quem eras tu? Quando, enfim, chegastes aqui, pensavas tu em algo mais sublime ou estavas mesmo de todo novinho, digo, sem ideias a borbulhar na mente? Oras, é verdade que teu o olhar não mente: toda esta conversa está mesmo fazendo-te enjoar e embrulhar o magro estômago que tens para estas coisas… Relembrar? Quem é que alguma vez disse-te que precisarias, um dia sequer, relembrar aqueles dias, tão ofuscados, tão opacos, talvez. No entanto, colhi um ramo de trigo certa vez, penso que tinha quatorze anos, e aquele ramo fez-me pensar nos raios de Sol e, sinto que estou a divagar… É que estes luminares naturais recorrem-me ao parto e, cá estamos, novamente, no início. Responde-me lá, bolas! Cadê a criança que eras?

Sabes tu dos molejos que ela tinha? Ou se tinha medo de cair com aqueles primeiros passos incertos? Será que, se forçares um pouco mais, lembras-te da tua voz? Não hesites ir adiante, pensar nos laços do cadarço ou da fita de laço… Pensar nos brinquedos divididos com os vizinhos de paço… Pensar nos primeiros bichinhos que tomaram lugar no estreito espaço de tuas mãos: um tatu bola? uma joaninha? Onde foi parar a infância que tu tinhas? E, quando notares que já vem-lhe, quem sabe, o mar na garganta, segura firme! Já não podes chorar, ó adulto, já não podes ser criança.


Foto: Não sei a autoria, se você souber, avise-me, por favor, que eu referenciarei.


Where’s the child who you used to be?

Children’s book Day - April, 18.

When you stopped all to look deeply inside yourself, see clearly. Don’t try to fake a dive, don’t try to simulate the deep. But, first, breathe all the air of the World and go to visit your ‘I-naked’. Do you remember when you was born? Even if you don’t, strain yourself just a little bit more, don’t leave upset that person who had just been someone. So, tell me, who you used to be? When you, finally, arrived here, did you used to think about something sublime or were you really new, I mean, without any ideas bubbling in your mind? Well, it’s true that your outlook doesn’t lie: all this conversation it’s making you get sickness and feel your thin stomach upset with these things… Remember it? Who ever said to you that you’ll need, even in a single day, remember those days so overshadowed, maybe so opaque? However, there was a time that I picked a wheaten bunch, I think I was fourteen years old, and that bunch inspired me to reflect about the rays of the sun and, well, I guess I’m digressing… It’s because these natural luminaries maked me think about the childbirth and, here we are again, at the beginning. Answer me! Where is the child who you used to be?

Do you know something about the grimaces witch that child had? Or if that little infant had fear to falling down because of that uncertain steps? If you try hard a little bit more, do you remember your genuine voice? Do not hesitate to go forward, to think about the shoelace ties or about the ribbon ties... To think about the first pets witch had taken a place in your narrow hands: a three-banded armadillo? a ladybug? Where are the childhood that you used to have? Due, when you notice the ocean witch wants to invade your throat, hold on! You can not cry anymore, dear adult, you can not be a child again.


Photo: Unknown author.

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