• Letícia Junqueira

“Construamos uma nova civilização”




Beija-flor. Foto: Rosalie Kreulen / Shutterstock.com



Um dos meus sonhos-de-futura-escritora é bem clichê: ter, todo dia, uma crônica nova para escrever e entregar, talvez para um jornal movimentado e com prazos acirrados que, sabe-se lá porquê, decidiu ter um espacinho de literatura e pessoalidade nos seus impressos (ou postagens online), talvez num site meu, no qual algumas pessoas bondosas comentam: “escreva sobre isso!”, “escreva sobre aquilo!”, fazendo-me feliz. E, sendo assim, é possível que, nesse contexto, eu fosse impelida a falar sobre o tema da ordem do dia e, voilà: “Dia do índio”, no Brasil.

Perguntei a um amigo ---- um dos meus amigos maravilhosos, engajado à dita causa ambiental e à causa indígena no país ---- o que os(as) próprios(as) indígenas brasileiros pensam desse dia, afinal, ainda que de forma alguma seja uma data comemorativa, possa ser, quem sabe, um marco. Entretanto, a resposta deles(as) ficará para outro texto, porque ela não veio a tempo desta crônica. Ainda assim, coloco-me no meu lugar de uma brasileira, no mínimo, curiosa, que pergunta a si mesma e ao(à) leitor(a): o que pensar (d)nesse dia?

Afinal, diante dos meus 23 anos, recordo-me que, na minha época de escola, este não era um dia de reflexão e calibragem de posturas políticas ou busca de qualquer aprofundamento nessas narrativas mas, antes, praticamente um dia de festa, de gincanas, de pintar um indiozinho no papel e colocar um adereço a imitar um cocar na cabeça. Era isso tudo o que podia-se fazer à época? Não sei. Mas, e hoje? Ano de 2020, no qual podemos acessar a alguns excelentes documentários, livros, palestras, páginas em aplicativos e sites, ainda há espaço para uma caracterização estereotipada, estagnada no tempo, superficial? Acredito que não.

Longe de mim imaginar que todos(as) têm e/ou querem saber mais, prestar mais atenção a este ‘outro’, que nunca deixou (ainda que não por escolha) de ser parte de nós, ou melhor, buscou ter-nos como parte integrante deste mar tão grande chamado Brasil. Entretanto, este, certamente, já não é um dia apenas para carimbar o calendário das instituições, jamais o poderia ter sido. À sociedade brasileira falta, massivamente, esta discussão, revisitação histórica e reparação. Às nações indígenas que, em seus territórios e em luta, resistem, são urgentes estas posturas.

Quê pensar nesse dia? Que é preciso aceitar o lugar da escuta, do aprendizado mais sincero: aquele que parte do(a) aprendiz. Enquanto eu tomava meu café, pela manhã, pensando no texto de hoje, li esta frase no calendário, dedicada ao dia 19: “Construamos uma nova civilização”. Como uma luva! Quando uma grande liderança, como Ailton Krenak, diz¹ que faltou ao ‘branco’² educação, temos a chave! Acredito que seja justamente o viés da educação, enquanto forma de dialogar em busca de mudanças viáveis no respeito e enquanto única via que alia saber e prática, que possa manifestar, nesta terra de Tupã, caminhos para construirmos uma nova civilização.


¹ Fala de Ailton Krenak do documentário “Guerras do Brasil”, primeiro episódio, disponível na Netflix.

² A palavra ‘branco’, neste contexto, indica os brancos invasores na altura da colonização do Brasil (os portugueses) mas alcança, agora no meu entendimento, todo(a) aquele(a) que não faz parte da descendência de alguma família indígena e que tenha sido socializado(a) na ‘sociedade branca’ e perceba-se parte dela de alguma forma (ainda que não, necessariamente, como herdeiro dos colonizadores, mas, talvez, como agente da permanência do status quo abordado na crônica).


E aí? Vamos dialogar este tema? Deixa-me um comentário, uma pergunta, uma sugestão, uma solução… rs Abraços!


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